Sonhar o nada…

Está dito!… Vou escrever a coisa mais non sense  que alguma vez tenha podido imaginar. Não há nada para ser dito. Nada para poder ser imaginado. Nada é nada!… E tudo, mesmo tudo, é nada! O vazio de mim é todo o meu ser que se completa com o pouco de tudo que há em mim. Eu sei que nada faz sentido. Então, porquê escrever?… Ou escrevo, ou acaba-se tudo antes de tudo poder vir a ser nada!…

Encontrei-me então no meio de um nada cheio de interrogações. Havia um caminho ladeado de árvores despidas. Pedras no chão, desenhando passos que muita gente já havia ali dado. E no fim de tudo… nada!… O caminho parecia não ter fim, mas então, se o fim era nada, o que podia ser a dimensão do nada quanto tudo tinha desaparecido. Os meus olhos alcançavam para além do nada, mas não conseguiam descodificar o que não estava ao alcance da minha vista. E a minha vista, no entanto, era apurada e eu sentia a existência de algo, mas de algo que era nada. Senti que estava perdido, mas como é estar-se perdido no nada? É um fim ou uma chegada?… Estamos sempre à espera de um destino. Não um destino como é geralmente entendido, mas como um objectivo que comporta um espaço e um lugar. Um local qualquer onde a nossa imaginação construiu uma ideia de se ter chegado. E quando ao chegar, encontramos nada? Apenas um vazio que não nos preenche o olhar, nem nos indica nenhuma direcção. Seguir sim, mas para onde se o destino é nada?…

Não havendo nada, também não havia ninguém. Apenas eu. Para onde tinham ido aqueles que são os outros?… Procurei meticulosamente vultos, sinais de vida, duendes e fantasmas, gnomos, daqueles que sinalizam tesouros ocultos em terra inexplorada, pedintes e vagabundos, indigentes e sem-abrigo, gente desprovida de vida, trols, ogros e goblins, que nos remetem para aqueles seres imaginários das florestas escandinavas… Mas nada!… Nada vivia ou jazia naquela paisagem vazia, sem volume nem dimensão. Senti-me no fim de tudo. Perdido e achado sem me encontrar e sem ser encontrado. Se aquilo não fosse o nada, onde me encontrava, então?… Aparentemente no nada. E que fazia então eu ali?…

Sentia-me isolado, mas para isso, tinha que imaginar que para além do nada, havia tudo, gente, pessoas, animais, plantas, coisas, terra e céu, nuvens, sol ou lua… mas apenas o ar parecia existir, porque sem isso, como podia eu justificar a minha existência naquele registo de não existir… nada!?…

Parei à procura de mim mesmo. Talvez me encontrasse depois de me ter perdido. Cerrei os olhos, e então algo surgiu dentro de mim. Não sei se dentro dos meus olhos, que continuavam fechados, se dentro do meu eu imaginário. O caminho definido por aquelas árvores alinhadas lateralmente, estava pejado de gente. Observavam-me com ar admirado, sussurrando conversas entre todos, e muitos deles apontavam para mim, como se eu fosse o centro das atenções. Lá ao fundo, vislumbrava-se uma cadeia montanhosa, carregada de arvoredo verde. E eu, ali especado, sem saber onde estava e confuso comigo mesmo. Agora nada me surpreendia e eu parecia nunca ter saído dali, daquilo que antes era nada. Agora, tudo fazia sentido, porque tudo, era aquilo que eu via… e o nada havia desaparecido. Estava tudo no lugar certo… e eu no meio desse lugar ressurgido!…

Parei de escrever, sentei-me num tronco de árvore tombado, as pessoas prosseguiram o seu caminho. Tudo era normal, agora. Fechei o caderno, permaneci quieto por alguns minutos. Voltei a abrir as páginas escritas e li… Fui eu que escrevi isto?… Ainda agora não sei, porque nada percebi. A escrita é um mistério dentro de nós, porque nunca sabemos ao certo o que escrevemos ou imaginamos. Escrevemos apenas aquilo que nos assalta…

 

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Pensar o mundo…

Dei comigo a pensar o mundo. Pensar é, já por si, um acto imenso, porque nos pode transportar quase até ao infinito, mas pensar o mundo é um acto ousado e sem limites, que nos faz correr o risco de nos perdermos em territórios desconhecidos. A nossa mente tem capacidades insondáveis de atingir cenários completamente novos e incompreensíveis, mas reside aí o desafio do pensamento.

Pensar o mundo, pode ser tudo e o seu contrário, mas por agora, o mundo que me interessa é aquela ideia que temos que o mundo é o conjunto de espaços e pessoas, de formas de vida, diversas e até mesmo desconhecidas, com todos os elementos de origem animal e vegetal, montes, vales e planícies, florestas e desertos, rios, mares e cidades, e um céu azul ou carregado, com nuvens e bandos de aves, que nos separam de um outro qualquer nível, a que uns chamam céu e outros universo. O mundo é tudo o que vemos, conhecemos ou já ouvimos falar, mas não sabemos ao certo, ser o único ou apenas uma amostra de um desconhecido que imaginamos.

É este o mundo que me preocupa, com toda a sua beleza, mas também as ameaças que sentimos, os medos que tentamos esconder e a sua capacidade de nos surpreender. Um mundo essencialmente de pessoas, mas que não nos pode induzir no erro crasso de que são as pessoas  apenas que o constroem e determinam, com os seus actos e  escolhas, os seus erros e imprudências, no modo como o tratam, o desrespeitam e maltratam. Não somos nós que o construímos, é antes ele que nos acolhe e disponibiliza o tempo e o espaço para nele construirmos, isso sim, as nossas vidas, e a isso se chama a sociedade.

Pensar o mundo, envole pois, pensar a sociedade que nós somos, a forma como nos organizamos e o modo como respondemos às condições globais que nos são proporcionadas, como as respeitamos ou desprezamos, como as conservamos ou destruímos, e por isso, pensar a sociedade é também cuidar do mundo que nos acolhe. E o mundo que hoje em dia sentimos à nossa volta, tem sintomas de graves anomalias. E a sociedade que nele vive, pouco ou nada se preocupa com o seu estado. Apenas exige dele um continuado esforço para se regenerar, nas sua fontes de energia e de sustentabilidade da natureza. E em troca, nada lhe dá. Suga-lhe as entranhas até impensáveis limites de usurpação dos seus elementos mais essenciais, dizima-lhe os pulmões verdes com que ele nos alimenta de oxigénio, extingue-lhe as espécies animais que fazem parte da sua mais pura cadeia de equilíbrio da vida selvagem e pulveriza-lhe as plantações dos nossos alimentos com produtos nocivos à nossa própria saúde, sem apelo nem agravo. E quando dele recebe gritos e outros sinais em forma de tempestades ou outras calamidades, não quer entender esses apelos e depois de chorar os mortos, prossegue no mesmo trilho de destruição sem parar para repensar sobre os erros que comete…

Pensar hoje o mundo e a sociedade é um acto de profunda reflexão, angústia e impotência. As pessoas consomem-se a elas próprias sem se darem conta da autofagia da sua insensibilidade. É por isso que pensar o mundo, para além de envolver a sociedade, mais do que tudo, envolve inevitavelmente as pessoas e a forma como, mais depressa do que pensam, destroem a organização da polis, e da própria política que, na sua génese, foi sendo criada para bem comum, com a contribuição de todos, na sua forma mais conseguida, a que chamaram democracia, o poder do povo.

Pensar em tudo isto, porque antes se pensou já no mundo, na sociedade, nas pessoas e por fim no povo, é pensar em nós, como ser individual e como um todo. Se o mundo está já num estado preocupante, as cidades, as pessoas e o povo são as vítimas de  tudo o que de mal, nós próprios, infligimos ao mundo, e é também na democracia que se reflecte muita desta acção contra-natura que teimamos em ignorar e evitar.

A cadeia de consequências é quase interminável. É talvez por isso que um dos últimos elos da cadeia, a democracia e a sua prática, sofrem sérios reveses nos dias de hoje. Existe um clima de desconstrução da hombridade que se foi erguendo, como alicerce das nossas vidas em comunidade. O egoísmo desabrochou, qual erva daninha, adubado por um individualismo que nega e contraria o normal conceito de comunidade, fortificando o aparecimento de dispersas e insidiosas correntes de pensamento que primam pela discriminação e segregação, sem qualquer vocação para incluir os menos desfavorecidos, antes pelo contrário, sobrevalorizando as diferenças como razão para a sua pura e simples exclusão. Este movimento segregacionista, que apenas protege um certo tipo de fundamentalismo, o de cada pequeno grupo que se segrega a ele próprio para não se misturar com aqueles que considera impuros, dissemina-se depois em todos os escalões da sociedade, em todas as actividades e procura gerar um ambiente de caos para justificar os seus ódios. A política, que deveria ser a arte ou a ciência da resolução dos problemas da comunidade, torna-se num meio de pulverização preversa da sociedade, espalhando ódios, diferenças, incompatibilidades e outras impurezas.

Nada disto, porém, surge apenas do acaso ou como consequência directa e imediata do estado geral do mundo. Há factores que são decisivos na agudização deste clima de descontrolo do bom senso colectivo. As lideranças conquistadas por responsáveis políticos sem o menor sentido do imperioso equilíbrio das coisas, do mundo da política às alterações climáticas, passando por uma visão demasiado simplista de assuntos complexos e determinantes para a paz no mundo, são uma perigosa e mesmo criminosa contribuição para a desestabilização mundial. A gestão da política ao nível do mundo empresarial e financeiro, deturpa a verdadeira missão de governar um país e subverte todas as regras que devem ser respeitadas para o governo das nações. Por outro lado, o próprio exercício da política, vem sofrendo progressivamente uma grave deterioração. O profundo e indisfaçável afastamento entre políticos e eleitores, é um fenómeno que cada vez mais desacredita a democracia e abre portas escancaradas para o aparecimento de populismos, terreno muito fértil para acolher os desiludidos e frustados com os reiterados erros e inépcias dos políticos que se iludem com o seu próprio brilho e se esqueceram que todo o seu desempenho deve ser feito em prol da comunidade. E a culminar tudo isto, grassa um rasto impuro de corrupção que se tornou uma doença quase contagiosa entre políticos, gestores e governantes.

Pensar toda esta cadeia de contaminações, que a pouco e pouco, vão corroendo os sonhos válidos das pessoas, tornando-as cada vez mais egoístas e solitárias, mais cuidadoras do seu próprio ego do que da sociedade em que se inserem, menos confiantes no seu semelhante e acima de tudo menos protectoras e cuidadoras do mundo em que vivemos, não deixa de ser um exercício de um enorme desalento e frustração que, no entanto, tem de ser combatido e transformado numa nova cruzada a favor de um mundo novo, do qual possamos ser dignos herdeiros e transmissores…

Por isto mesmo, pensar é importante!… Não esperemos por amanhã!… Pensemos hoje!…

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A anatomia da morte

A morte é o fim de um sonho lindo. Um sonho que nos ilude durante todo este tempo em que julgamos viver, com o pesadelo da morte à distância do desconhecido. A vida não existe. A vida é apenas a antecâmara do tempo que levamos até a morte chegar e assim, aquilo a que chamamos vida, é ela própria a morte que nos engana e dá a ilusão de termos estado vivos. Somos todos mortos que vagueiam num limbo entre o nada e o fim da vacuidade a que chamamos vida. Porquê e para quê viver se a morte sempre esteve connosco e nós prisioneiros dela?…

De cada vez que morre um amigo, alguém que tenha sabido transmitir-nos algo para além de nós próprios, morremos um pouco mais com essa perda e sentimos a morte, que sempre esteve em nós, mais perto da sua consumação inflexível. Todos existimos com a sensação de estarmos vivos e afinal já somos mortos em potência. Impotentes de evitarmos um fim que sempre existiu. Um fim que tentamos enganar durante o tempo que consumimos a desdenhar os mortos que sempre fomos.

A morte é a injustiça mais injusta que nos foi concedida. A condenação sem prova possível de inocência. O suicídio que sempre recusámos. A pena que julgamos nunca merecer. E afinal nascemos já mortos no argumento que a natureza nos reservou, fazendo-nos passar por vivos enquanto não entramos em cena. A morte é uma peça que interpretamos sem qualquer talento. Uma prestação, que por mais exemplar que seja, não merece aplausos nem assobios. Acontece simplesmente e o pano cai sem coroa nem glória. Sem brilho. Sem um encore apenas que seja. Sem sequer uma vénia de gratidão ao público, que a tudo assistiu e deixa a sala num murmúrio de falas banais, que já nem sequer ouvimos. Estamos todos mortos e declinamos esse estado de existir. Recusamos a nossa condição. Esforçamo-nos ingloriamente por sermos os mortos mais vivos que podemos ser. E para quê? É certo que fazemos os possíveis por não morrermos e quantas vezes não sentimos que valeu a pena, que conseguimos uma existência plena e feliz, mas a morte cohabita o nosso ser, qual uma ampulheta que nunca sabemos quando se esgota. A morte está sempre connosco e não a podemos iludir.

Não! Não renego esta ante-morte que nos permite sentir como seria se fossemos vivos. Vivos na plenitude do significado desta condição. Vivos com a liberdade de sermos vivos ou sermos mortos, de ambicionarmos a eternidade, de podermos planear uma existência ou o fim dela. Vivos, sem termos como fatalidade final, a morte sem apelo nem agravo, sem comutação de um destino que não nos pertence decidir. Não! Prefiro este ensaio de vida que nos é permitido, algumas cenas antes da morte, mas não a tolero, não a aceito, não estou disponível para a receber, interrompendo o papel que me foi atribuído!

Dirão talvez que a eternidade é uma ilusão, uma miragem, um acto egoísta para com o mistério da existência que permanece indecifrável, mas eu anseio por ela, essa coisa, esse estado desconhecido que é a eternidade até que a nossa vontade nos  leve a decidir a morte. Tudo o resto é uma injustiça. Uma violência. Um assassínio sem defesa possível.

De cada vez que um amigo morre, eu revolto-me! Caio num espasmo interior de recusa, de negação e choro como se fosse eu que morresse, mesmo sem saber se os mortos vertem lágrimas e sentem emoções de qualquer ordem. A mentira da minha vida fica mais triste porque me roubaram o calor e o olhar de alguém que me era querido. Deveria ser proibido aos amigos morrerem sem o nosso consentimento, ou então, sem compreendermos as razões da decisão de morrerem e deixarem-nos mais pobres, mais sós e um pouco menos vivos…

Quando um amigo morre ou alguém, que em vida nos fez querer continuar cada vez mais vivos e realizados, o meu sangue perde um pouco da sua força e do seu ritmo, fico eu próprio mais perto de uma morte que odeio, que visceralmente repudio na sua insensibilidade e malvadez.

Deveria haver uma lei universal que não permitisse a morte sem o nosso consentimento! E que fosse promulgada a eternidade por vontade própria!… A morte, assim como ela é… não!…

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O meu ser universal

Todos, em qualquer altura, nos questionamos sobre quem somos nós. Numa fase mais elaborada desta nossa interrogação, perguntamo-nos frequentemente sobre qual o papel que desempenhamos no seio desta sociedade, o que nos está destinado, se é que o destino existe e está visceralmente ligado ao nosso gene de origem, no meio da humanidade. O que é realmente a humanidade?…

 A própria condição humana conduz-nos inevitavelmente ao conceito de humanidade, mas qual o seu verdadeiro significado nesta amalgama de raças, tribos, classes, castas e outras sub-categorias, onde coexistem, ou não, ainda, os mais variados credos ou religiões?

Nos meus silêncios, refúgios do meu pensamento, dou comigo frequentemente a reflectir sobre tudo isto e assustam-me a enorme quantidade de variáveis que influenciam as relações entre todos estes sub-conceitos. Sendo a humanidade um colectivo, parece existir um especial e intenso afã, em dar um relevo, quantas vezes abusivo e malicioso, às diferenças entre todos eles. Não ocorreria nenhuma ameaça se as diferenças fossem vistas como uma riqueza e um factor de reconhecimento positivo das características de cada grupo, coisa que infelizmente raramente acontece, servindo mais para procurar os pontos e sinais de antagonismo e, consequentemente, de fricção e incompatibilidades entre grupos diferentes.

O meu ser universal não admite esta triste realidade e por isso recuso terminantemente qualquer tratamento específico baseado nas inúmeras diferenças que existem entre todos nós, que constituímos essa comunidade chamada humanidade.

Os países e territórios que se baseiam apenas numa raça e, mesmo dentro dessa, privilegiam classes ou castas, inserem-se numa ameaça colectiva que vai contra qualquer conceito de humanidade. São furúnculos sociais que gangrenam a sã convivência entre todos os humanos. Que melhor clima se viveria nas nossas cidades, nos nossos países, nos nossos continentes, no mundo, em geral, se a diversidade fosse o traço de união e de engrandecimento, entre todos. A riqueza da diversidade, é ela própria, o húmus de uma melhor convivência, de uma interacção entre culturas que se podem completar e evoluir porque poderão contar com as sinergias mais profundas do nosso eu mental e espiritual. Espalhar a diversidade é adubar o nosso futuro.

Daí, o meu sonho, talvez ingénuo, visionário ou utópico, de uma sociedade universal, que apenas tivesse por objectivo o bem estar de todos. Onde todas as tradições e culturas se pudessem respeitar e até mesclar para proveito de quem as quisesse seguir.

Poder-me-ão argumentar que para tais propósitos já existem certas religiões ou credos que tentam fundir princípios e valores, mas também práticas ou rituais, a isso conducentes. Responder-lhes-ei, que o perigo e ineficácia de todas as religiões é a sua apetência para o controlo e aprisionamento dos eus de cada um, impondo-lhes regras e mandamentos que acabam por criar novas diferenças e novas clivagens. A mente humana é um bem que se sobrepõe a todo e qualquer projecto de uma mente universal e colectiva. E quando me refiro ao meu ser universal, aludo a uma intocável entidade individual que contribua para um bem colectivo, mas nunca para a criação de uma mentalidade colectiva subordinada a qualquer outra entidade, divina ou não, que se sobreponha à individualidade de cada um.

O meu ser universal poderá ser um futuro ainda distante, mas convém alimentá-lo até que o sonho deixe de o ser e possamos todos viver a utopia…

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Pensar com todos os sentidos…

Por vezes, dou comigo a pensar em abstracto. A pensar como se fosse um exercício de manutenção da mente. E quantas coisas novas descubro dentro de mim. Quanta novas abordagens me surgem, até de coisas tantas vezes já pensadas. Existe uma imensa biblioteca de pensamentos dentro de nós e bastam-nos uns minutos de silêncio, de profunda ausência da realidade que nos preenche todo o tempo, obliterando a nossa capacidade de parar para exercitar o pensamento e descobrimos que existe vida para lá da futilidade dos nossos dias passados a consumir o tempo, sem nada de proveitoso e profundo que nos enriqueça a nossa existência.

Este exercício pede-nos apenas concentração e liberdade. A liberdade de podermos dar asas a esta única forma de raciocinar, mesmo até aos limites do irracional, porque tudo deve ser possível de questionar e reflectir. Questionarmos mesmo o inquestionável que repousa dentro de nós, no fundo falso da nossa normalidade, da nossa consciência formatada pelo bem e o mal, pelo certo e o errado, pelo correcto e o incorrecto, pela virtude  e o defeito e por tudo o que nos vão incutindo durante a nossa vida, como sendo o catálogo do ser perfeito. A imperfeição é-nos recusada porque através dela podemos talvez chegar a níveis da nossa condição que nunca alcançámos e isso amedronta as mentes protegidas, preciosamente pelo medo de pensar.

É no exercício do pensamento que todos os nossos sentidos encontram também novas formas de sentir. Novas formas de olhar, de ouvir, de nos expressarmos ou de nos apercebermos da importância do tacto e até da magia que é respirarmos e através desse reflexo auto induzido, assegurarmos a mecânica e a química que nos mantém vivos.

Não poucas vezes perco-me nas ruas da cidade, esta ou qualquer outra e quedo-me sentado, em qualquer circunstância, a olhar para a vida que passa à minha frente. Simplesmente a pensar e a olhar. E descubro um verdadeiro festival de arte humana e urbana tridimensional. As pessoas que comigo se cruzam são actores e personagens de uma improvável encenação que nos faz representar a vida tal qual ela é. Sem guião ou ensaios. Apenas o improviso de estar vivo e ter o espaço todo, incomensurável, do mundo, para representarmos o espectáculo que a natureza nos reservou. É deliciosa esta capacidade de podermos observar os outros e sabermos que mesmo ali sentados, fazemos também parte da mesma cena que acontece na mente e imaginação de qualquer um. É um encontro e desencontro. Um estar e não estar. Ser e não ser, porque todo e qualquer um pode ser o que o outro imaginar. Um jogo de espelhos virtuais por onde espreitamos o reflexo de cada um e cada um, o nosso.

Mas pensar no recolhimento do nosso refúgio é também salutar e importante para nos procurarmos dentro de nós próprios. Pode parecer um paradoxo, mas quando estou só, penso em viver a cidade e quando a vivo, anseio recolher-me de novo no abrigo que é só meu. Gosto de estar só e, no entanto, anseio por companhia. Sinto necessidade de convívio e ao mesmo tempo de recolhimento. De amigos e de silêncios. De estar presente sentindo o apelo da ausência. Vivo a constante inquietude de estar vivo e por isso não posso viver sem pensar. Pensar e deixar que os meus sentidos me guiem neste labirinto que é viver…

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das pessoas, das suas opções e dos espaços

Os espaços e as pessoas

Acontece, por vezes, que duma mera conversa surgem mais reflexões e mais ideias do que aquelas que, inicial e ocasionalmente, vão sendo trocadas e expostas ao sabor do acaso e das palavras fortuitas que se trocam. Acontece que de simples ideias e do jogo que se estabelece entre as cumplicidades de dois interlocutores, ou mesmo mais, surgem novas ideias e novos motivos para reflexão e debate. Para interrogações que nunca se nos tinham posto e para uma vontade expressa de enriquecer o debate sobre um determinado aspecto do diálogo.

Aconteceu numa conversa com uma amiga minha recente, dada a sua formação na área da arquitectura, tregiversarmos sobre opções e sobre espaços. O conceito partiu das opções no campo da arquitectura, propriamente dita, mas cedo concordámos que ele se aplicava a muito mais das nossas vidas, mesmo até porque a disciplina de organizar as estruturas edificadas no espaço urbano ou outro, tinha tudo a ver com as opções das pessoas e estas tinham a ver com os conceitos de espaços e de como eles deveriam sempre responder às necessidades e anseios de cada um e de todos no seu conjunto.

O espaço é um conceito em si vazio e no entanto repleto de opções e de variantes infinitas, que, no entanto, as pessoas desvalorizam enquanto factor determinante na organização das suas vidas. O espaço material, físico e cartesiano determina e obriga à nossa organização no espaço social que nos envolve. Mas o espaço temporal está também intimamente ligado às opções que se tomam para a ocupação do espaço disponível, para que as nossas vidas em sociedade se possam organizar da melhor maneira e constituam um equilíbrio entre as nossas mais prementes necessidades de acolhimento e o modo como a satisfação dessas necessidades se articulam com o espaço envolvente que nos propomos ocupar.

O espaço social é aquele que envolve a inevitabilidade de vivermos em sociedade, em conjunto e em mínima sintonia com as vontades e exigências de cada um, enquanto cidadãos. Há espaço que se extingue e espaço que sobra, e desse equilíbrio terá de se escolher o espaço útil que respeita as opções de cada um e o respeito de cada um pelo que se acredita ser o direito de todos. Será aqui que entram as opções, e estas são um factor determinante na forma de ocupar o espaço e até na forma de simplesmente não o ocupar, ousando respeitá-lo apenas como uma dimensão do vazio, que é a sua forma mais pura. A compatibilidade entre o espaço e as opções do seu preenchimento e também do seu uso, é o exercício mais difícil, mas também o mais desafiador e gratificante que se nos pode pôr. É o exercício da ousadia, da criatividade e do sonho.

Mas falar de espaço pode levar-nos ainda a outras dimensões, não menos importantes, da convivência em sociedade, seja ela urbana ou não, ou mesmo de isolamento assumido por opção. A dimensão do espaço enquanto silêncio é também e inevitavelmente uma opção a considerar. O silêncio, à imagem do espaço na sua versão mais pura, transporta-nos também para o conceito de vazio, de não prenchimento e de ausência de qualquer coisa. O espaço do silêncio assume-se assim tão importante como qualquer outro, porque a ocupação desse vazio se pode fazer pelo próprio vazio duma ausência de dimensão, que acaba assim por adquirir a dimensão duma opção.

Na realidade, tomando como infinito o espaço, são infinitas as suas formas, as opções de o preencher e mesmo as ousadias para o reinventar. O espaço, como as opções, está intimamente ligado à pessoa humana, ao cidadão, à sua disponibilidade quase obrigatória para viver em comunidade e a incomensurabilidade da sua dimensão deixa-nos espaço ao sonho e à infinita criatividade de que todos podemos e devemos fazer uso.

O equilíbrio das nossas opções nos diversos espaços disponíveis, traduz bem a medida da nossa infinita capacidade de conjugar o real com o irreal e mesmo assim sobrar ainda espaço para o sonho.

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das dúvidas e das certezas das pessoas

Partindo do princípio de que as pessoas pensam, não se resumindo o pensar a uma mera reacção neuro-funcional do nosso cérebro, mas antes a uma decisão implícita da vontade própria e da necessidade interior de organizar e formular ideias, de as trabalhar e questioná-las perante o nosso raciocínio, com a influência de todas as estimulações externas e internas que sempre nos condicionam, é impossível que tal exercício nos liberte de dúvidas e certezas, pequenos e decisivos impulsos para o desenhar da nossa conduta, da nossa forma de encararmos o mundo e a vida, e de criarmos a nossa própria identidade.

O aparente antagonismo entre estas duas percepções do nosso raciocínio apenas o é, se as quisermos reduzir a uma fórmula menor e anódina da nossa superior capacidade de pensar duma forma dinâmica e evolutiva, capaz de em cada instante responder às interrogações que a vida nos põe e simultaneamente nos voltar a perturbar com essas mesmas questões, agora duma forma desafiante e progressiva, na busca de soluções finais que nunca se concretizam. Este é o processo da nossa inquietude e da nossa constante insatisfação.

Num processo aparentemente normal, as dúvidas transformam-se em certezas, mas será que estas são capazes de nos aquietar a consciência e satisfazer a nossa constante irreverência intelectual e intuitiva? Na realidade, quem alimenta as dúvidas para alcançar certezas e por elas se fica, convencido de que aí terminou o processo de enriquecimento do seu conhecimento, ou atingiu o estado amorfo duma evolução sem dinâmica que se esgota em si mesma, ou duma presunção doentia de que a perfeição lhe estava ao alcance e essa terá sido finalmente conseguida.

Nada melhor do que as dúvidas para sempre porem em causa as certezas, mesmo que as primeiras tenham sido a causa das últimas ou estas o epílogo abusivo e sobranceiro, mas nunca definitivo, das incertezas que as dúvidas nos colocaram.

Pessoalmente, sou muito mais as dúvidas que tenho do que as certezas que julgo ter. As dúvidas ajudam-me a cultivar o princípio da imperfeição e este sentimento impulsiona-me sempre a tentar demonstrar perante mim mesmo que é sempre possível outra forma de alcançar novos conceitos, novas ideias, novas soluções e novos sonhos ainda não desmistificados pelo corroer das desilusões que também habitam o nosso imaginário.

Partir das dúvidas para a conquista das certezas é um caminho intuitivo, mas ganhar novas dúvidas, impulsionado pela imponderabilidade destas mesmas se afirmarem como perfeitas ou únicas, é o processo mais próximo dessa mesma perfeição e aquele que nos manterá perpetuamente activos e vivos na busca dos defeitos da nossa presunção humana.

Aqueles que se contentam com as certezas alcançadas e nelas assentam o seu postulado de vida e, ainda pior, as tentam impor aos outros como quase dogmas nascidos da sua doutrina, ela própria carregada com novas dúvidas, que com o processo foram tentando ignorar, de cada vez que atingiam uma certeza, são pessoas incompletas e perigosas, porque procuram resolver o mistério da vida, não com uma constante abertura para todas as alternativas que ela própria encerra, mas com respostas definitivas que os isenta da dúvida eterna que nos mantém vivos. E com esta atitude se demitem de contribuir para o bem comum porque julgam ter encontrado no seu caminho o único possível, para si e para os outros.

Por outro lado, aqueles que vivem com as dúvidas a pulsar-lhes no sangue e que encaram as certezas como uma inestimável fonte de novas questões, mesmo quando pôem em causa as respostas já alcançadas, contribuem para o engrandecimento da condição humana, uma condição preferencialmente insubmissa e irreverente, até mesmo para com as convicções que se vão sedimentando na nossa identidade. Estes conseguem admitir que nada é imutável e que a dinâmica do pensamento é o melhor motor na busca da melhoria do ser humano. Duvidar será pois muito mais construtivo do que aceitar dogmaticamente as respostas como certezas absolutas.

É por isso que reafirmo que sou muito mais as dúvidas que tenho do que as certezas que julgo ter. Convictamente, mesmo que isso se mantenha uma eterna dúvida dentro de mim…

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das pessoas e do acto de pensar

Arvore solitaria

Um exercício quase absurdo seria imaginarmos a existência de pessoas sem a capacidade de pensar. Ou antes ainda, sem a vontade ou a intuição de pensar. O instinto do pensamento será em si uma razão justificativa do factor racional das pessoas!?… Ou será antes uma faculdade que é mais ou menos induzida por outras instâncias da vontade e da necessidade que certas pessoas desenvolvem, como resposta às suas dúvidas e a uma insustentável aversão à resignação, como forma de iludirem as suas próprias fraquezas e frustrações!?…

Olhando hoje à nossa volta é contudo pacífico podermos dizer o quanto a abstinência do pensamento grassa na nossa sociedade. E é evidente que, não querendo ser fundamentalista nesta afirmação, terei de a enquadrar numa certa forma de exercer o pensamento, porque no fundo, duma forma instintiva, puramente animal, aliada à génese do conceito do racional, o ser humano vai ainda pensando, mas trata-se duma forma de pensar básica e intuitiva, como sinal de um certo instinto de sobrevivência. Pensa-se como se respira, como se cumprem as necessidades fisiológicas, como se cumpre o sexo apenas por cumprir, sem uma componente lúdica a transbordar volúpia e erotismo, como nos locomovemos por imperiosa necessidade de cumprirmos rituais gregários ditados pelo trabalho, pela disciplina rígida da convivência social ou de formas de lazer amorfo, multiplicadas pelos milhões de seres que nos imitamos todos os dias.

Pensar de outra forma, dum modo inteligente e crítico, irrequieto e compulsivo, irreverente, insubmisso e permanentemente insatisfeito, é algo que hoje em dia assalta uma fatia muito diminuta da sociedade. As pessoas estão demasiado ocupadas a esforçarem-se para não pensar, a abstraírem-se do que as rodeia para além dum perímetro que começa e acaba no seu umbigo, a encaixarem-se nos projectos, que lúgubres centrais do marketing, da publicidade e do entretenimento empacotado dos media televisivos e outros, para si fabricam e divulgam das mais variadas formas. Os políticos de manga-de-alpaca e colarinho branco ajudam a institucionalizar esta praga. As pessoas verdadeiramente não pensam, apenas recebem a informação, apreciam, relativizam e decidem de acordo com o que lhes é apresentado e suportam os encargos de tudo isso como uma obrigação que lhes acalma a alma e o espírito, julgando assim contribuírem para a satisfação das suas necessidades mais prementes. Mas apenas adiam o seu verdadeiro encontro consigo próprias e desperdiçam o potencial de raciocínio e de liberdade de pensamento, que as deveria diferenciar de qualquer andróide ou ser amorfo e acrítico ainda por inventar.

Quem mais foge à liberdade do pensamento é quem mais defende a tirania do consumível e do consumado. Porquê pensar em excesso, para além do estritamente exigível e necessário, se tudo se consome e tudo já está consumado nos horizontes daquilo que alguns projectam para o nosso presente e o nosso futuro!?…

É por isso urgente agitar este marasmo do pensamento. Desobstruir as vias da criatividade e do sonho. Subverter a apatia da nossa inteligência adormecida. Criar uma central de sonhos e do pensamento. Uma confraria da discussão permanente. Fóruns, conferências, colóquios. Promover uma feira de novas ideias e uma festa global da alegria e da utilidade de pensar. Introduzir no ensino obrigatório uma disciplina do pensamento e da discussão. Apoiar a contestação como forma lúdica e erudita de exercitar o raciocínio. Em última instância, proibir as pessoas de não pensar e logo a seguir libertá-las para que amanhã seja já proibido proibir. Basta pensar na exequibilidade dos sonhos e na força do nosso pensamento. Porque é urgente pensar.

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do tempo e dos outros

Recordar o passado, reflectir o presente e projectar o futuro, são atitudes que todos nós, de uma ou forma ou de outra, com maior ou menor frequência e com mais ou menos objectividade, sempre vamos fazendo, como método de balanço do nosso espaço temporal de vida.

As experiências que nos marcaram e os hiatos do nosso percurso em que nada de verdadeiramente assinalável nos aconteceu, bem como os momentos de excelência que possamos ter vivido, podem-nos servir para criar uma base de conhecimento, para nos ajudar a encontrar razões e explicações para o percurso do nosso presente e assim compreendermos melhor o que se passa connosco neste espaço de tempo relativamente dinâmico que constitui a actualidade das nossas vidas.

O presente é aquilo que sentimos agora e o que pensamos poder prever para o amanhã, mas ele é tanto ou mais imprevisível como o conjunto das nossas frustrações e sucessos, essas uma quase certeza vivida, misturadas com o nosso estado de espírito em cada dia que começa e ainda as angústias e incógnitas que nos assaltam no passar de cada minuto. É tudo isso, esse emaranhado de certezas, conjecturas e desconhecido, que impulsiona e ao mesmo tempo angustia a nossa existência. O amanhã, o futuro, a nossa projecção nos dias que ainda hão-de vir, tanto podem ser um pesadelo adiado como um sonho estóica e benevolentemente alimentado pela nossa vontade de conquistarmos num tempo ainda inexistente aquilo que já hoje gostaríamos de estar a viver, antecipando assim o porvir de uma realidade que sempre nos surpreende ou desilude.

O tempo é o veículo de toda a nossa existência e raramente respeita horários ou mesmo percursos, paragens e apeadeiros, ou mesmo lugares marcados. Tanto viajamos sentados como amalgamados e comprimidos no meio duma multidão imensa de seres igualmente à deriva neste imenso espaço que é a vida. E raramente podemos escolher os parceiros de viagem ou mesmo aqueles com quem entabulamos conversa num qualquer cais do universo. E se ficamos calados, absortos numa solidão a que queremos chamar só nossa é impossível alhearmo-nos dos sussurros dos outros, mesmo que estes estejam igualmente mudos, de olhares parados e corpos inertes, porque eles estão lá e então nós não somos apenas nós. Somos nós e os outros. Somos nós e aquilo que vemos nos outros. Nós e aquilo que pressentimos nos outros e quando um dos outros se move, somos nós que nos movemos porque a multidão dos outros é a nossa própria e unipessoal multidão.

Os sonhos, os projectos, os anseios, os sucessos, as conquistas, os desaires, as tragédias e as tristezas dos outros, são as nossas próprias, mesmo que as tentemos ignorar. E todas estas emoções, certezas ou sensações interferem no desenrolar do nosso próprio sonho. E elas alimentam também o ciclo da nossa vida que é inseparável da vida de todos os outros que connosco interagem, mesmo quando julgamos ser só nós o centro de tudo. Somos apenas um centro virtual concêntrico e ao mesmo tempo desconexo com o infinito de centros que constitui tudo o que nos rodeia. Muito especialmente os outros, as pessoas…

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das pessoas, das emoções e das relações

Falar das pessoas. Descodificar as relações e tentar construir pontes entre aquilo que cada um projecta e o espaço que os os outros nos deixam livre para podermos sonhar. A complexidade dos laços que a vida nos proporciona e os abismos que se nos apresentam em cada esquina do tempo. Era disso que se tratava e a cada momento esta tortuosa relação, entre aquilo que consideramos ser a nossa necessidade de convivermos e as oportunidades e contrariedades que vamos enfrentado, toda essa dicotomia entre o desejável e o improvável, acabava por lhe manietar a capacidade de iniciativa. Cada dia que passava era mais um mar de esperança encapelado pelas vagas dum isolamento crescente e demolidor.

Que representam as pessoas na solidão de alguém?.. Serão um caminho ou um muro intransponível!?… Ou antes, um labirinto de comportamentos, de receios, de incertezas ou de vacilações?…

As pessoas funcionam biológicamente graças a mistérios científicos e naturais ainda não plenamente entendidos por todos e cada um de nós. Tentamos apenas racionalizar esses mistérios à luz do conhecimento que vamos ganhando, ou mesmo à infinita capacidade de acreditarmos que tudo tem uma explicação. Mas se no campo biológico essas certezas nos vão sendo suficientes e nos servem de estímulo a aprofundarmos a sua base científica, já o mundo das emoções das pessoas constituem um mundo difuso, complexo e imaterial que nos perturba e nos confunde. É esse mundo aquele que mais nos condiciona e ao mesmo tempo se torna responsável por tudo quanto vivemos fora e dentro de nós próprios.

As emoções são o mistério permanente daquilo que não conseguimos descodificar. A desculpa e a fonte de energia a que recorremos em cada momento das nossas decisões, que queremos acreditar serem racionais, porque aprendemos, de certo modo, a controlá-las, ou no mínimo a acreditarmos que as conseguimos controlar. Mas as emoções permanecem ocultas, sem forma ou matéria, sem código genético identificável e sem qualquer previsibilidade que nos possa ajudar a reconhecê-las e a orientá-las de acordo com aquilo que racionalmente tentamos organizar como futuro, projecto ou sonho de vida.

Entender as pessoas, acontece essencialmente no plano racional, na análise dos seus comportamentos. Mas os comportamentos nem sempre são racionais. Tentam sê-lo e tentam ser validados por aquilo que fomos acumulando ao longo da nossa vida, como experiência e conhecimento, mas quanto de nós próprios permanece indecifrável dentro do nosso mundo das emoções.

Aquilo a que chamamos relacionamento entre duas pessoas e mais ainda aquele que envolve homens e mulheres, assume formas complexas de desenvolvimento e de inexpectabilidade que nos atormentam e nos confundem, assim como nos confortam e inebriam, sem que as possamos controlar ou racionalizar. São as razões e origens dos nossos encontros e desencontros. Dos nossos êxtases e desesperos. Das nossas paixões e das nossas desilusões. Falar daquilo que se passa entre um homem e uma mulher que se encontram, que sofrem uma atracção mútua, que se envolvem naquilo vulgarmente designado como paixão e de como tudo isso pode ser confundido com outra coisa, também indefenida e indefinível, como seja o amor, pode ser um exercício fascinante mas também inconsequente, porque nenhuma destas emoções pode ser definitivamente compreendida.

Tentar definir a paixão e o amor é quase como nos tentarmos definir a nós próprios. Julgamos saber perfeitamente a definição, mas no fundo, o que nós julgamos saber é aquilo que desconhecemos e tentamos a todo o custo acreditar porque nos serve no momento e nos alivia desta incómoda e irresolúvel incapacidade de nos compreendermos. Tudo o que conseguimos é inventar as tais desculpas e fontes de energia para justificarmos o estado emocional em que entrámos e que não conseguimos racionalizar. É, por assim dizer, um limbo entre aquilo que compreendemos à luz do nosso conhecimento e experiência e aquilo que, sem o sabermos definir, nos dispõe bem, nos inebria, nos transporta para níveis insondáveis de prazer e de desejo, sem o ónus da responsabilidade, da culpa ou da análise racional que sempre nos tenta condicionar. É um estádio de arresponsabilidae que nos liberta dos condicionamentos que a racionalidade foi erguendo dentro da nossa mente.

Talvez seja por isso que falar das pessoas, das emoções e dos relacionamentos a este nível, seja uma perda de tempo. Mas essa perda deixa de ter significado porque não há tempo que contenha as emoções. Elas são atemporais e existem numa outra dimensão do tempo a que nós não conseguimos aceder. Apenas sentir e isso basta-nos. Se tudo isto não fosse assim, nem pessoas seríamos, apenas produtos biológicos do universo. Não seríamos felizes nem infelizes. Seríamos apenas seres…

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